Construção residencial na UE sobe 48,2% em uma década (Eurostat 2015-2025)

O preço da construção de novos edifícios residenciais na União Europeia acumulou alta de 48,2% entre 2015 e 2025. É o que revela a edição 2026 do Key figures on European business, publicada pelo Eurostat em 25 de junho de 2026. O dado importa porque explica boa parte do encarecimento observado no mercado imobiliário europeu no mesmo período e sinaliza pressões que devem continuar afetando quem planeja adquirir, construir ou reformar imóveis em Portugal, Espanha, Itália ou qualquer outro país do bloco.
O essencial em números, 2015-2025
- Alta acumulada na UE: +48,2%
- Anos de maior aceleração: 2021 (+5,8%), 2022 (+12,2%), 2023 (+6,9%)
- Desaceleração recente: +2,3% em 2024 e +1,3% em 2025
- País com maior alta: Bulgária (+166,1%)
- País com menor alta: Itália (+17,0%)
Fonte: Eurostat, dataset sts_copi_a.
O que o índice mede e por que importa
O indicador em questão é o índice de preços do produtor para a construção de novos edifícios residenciais, exceto residências para comunidades (asilos, dormitórios coletivos e similares). Ele reflete os preços das atividades de construção do ponto de vista da construtora, baseado no que o cliente paga ao contratante. Em outras palavras, capta a variação do custo total de erguer um edifício residencial novo, incluindo materiais, mão de obra, energia, equipamentos e margem.
Não confundir com o preço da moradia (que também depende de fatores como terreno, financiamento, demanda e regulação): o índice do Eurostat é um retrato mais próximo do que os empreendedores precisam desembolsar para colocar um imóvel novo de pé. Toda vez que esse custo sobe, o preço final do apartamento novo também tende a subir, ou a margem do incorporador se comprime, ou ambos. Para o comprador brasileiro que estuda o mercado europeu, portanto, o dado é uma referência estrutural, não um número marginal.
A década em curva: como a UE chegou a +48,2%
A alta acumulada não foi linear. Nos primeiros anos do período (2015 a 2020) os preços subiram em ritmo moderado, típico de economias com inflação baixa. A partir de 2021, com a saída da pandemia, o cenário mudou radicalmente: gargalos globais de cadeia de suprimentos, disparada das commodities, choque energético agravado pela guerra na Ucrânia em 2022 e escassez de mão de obra qualificada em vários países do bloco produziram três anos consecutivos de fortes reajustes.
Variação anual dos preços de construção residencial na UE, anos-chave| Ano | Variação anual | Contexto econômico dominante |
|---|---|---|
| 2021 | +5,8% | Retomada pós-pandemia, gargalos de oferta |
| 2022 | +12,2% | Choque energético, guerra na Ucrânia, inflação recorde |
| 2023 | +6,9% | Alta ainda pressionada por energia e mão de obra |
| 2024 | +2,3% | Normalização parcial, política monetária apertada |
| 2025 | +1,3% | Desaceleração próxima à meta de inflação do BCE |
O triênio 2021-2023 concentrou boa parte da alta acumulada da década, com efeito composto de mais de 26 pontos percentuais. A desaceleração de 2024 e 2025, ainda que aparentemente confortável, ocorre em cima de uma base já muito mais alta: o custo de construir hoje na UE é praticamente metade a mais do que era em 2015, e a queda não vem, apenas a estabilização em patamar elevado.
Ranking por país: Bulgária, Hungria e Romênia lideram; Itália e Grécia freiam
A média europeia esconde diferenças enormes entre países. Nos dez anos analisados, três economias do Leste tiveram altas superiores a 100%: Bulgária (+166,1%), Hungria (+155,4%) e Romênia (+130,7%). No outro extremo, três países do Sul e Norte europeu ficaram com aumentos abaixo de 25%: Itália (+17,0%), Grécia (+17,3%) e Finlândia (+22,1%).
Variação acumulada do preço de construção residencial por país, 2015-2025| Grupo | País | Alta acumulada |
|---|---|---|
| Maiores altas | Bulgária | +166,1% |
| Hungria | +155,4% | |
| Romênia | +130,7% | |
| Média | União Europeia | +48,2% |
| Menores altas | Finlândia | +22,1% |
| Grécia | +17,3% | |
| Itália | +17,0% |
Duas leituras principais emergem do quadro. A primeira: as economias do Leste europeu, com custos iniciais mais baixos e trajetória de convergência salarial e de padrões construtivos, absorveram parte da alta como movimento estrutural de nivelamento com o resto do bloco. A segunda: países como Itália e Grécia, com forte estoque de imóveis usados, mercado imobiliário de crescimento lento e capacidade instalada ociosa, sofreram menos pressão de preços, embora enfrentem outros problemas (envelhecimento do parque residencial, sismos, subinvestimento).
Portugal e Espanha, principais destinos da diáspora brasileira contemporânea, não aparecem no topo nem no fundo do ranking, mas seguem próximos da média europeia. Quem planeja comprar ou construir nesses dois países opera em ambiente inflacionário na construção, ainda que menos agudo do que em Sofia ou Bucareste.
Por que a construção ficou mais cara
Quatro vetores explicam boa parte da alta acumulada. Nenhum atuou isoladamente e todos interagiram entre si:
- Choque de commodities e insumos. Cimento, aço, cobre, alumínio, madeira e produtos químicos ficaram mais caros em ondas sucessivas, primeiro por gargalos logísticos pós-pandemia, depois pela crise energética de 2022.
- Energia. A construção é intensiva em energia, tanto na fabricação de materiais (cimento, cerâmica, vidro, siderurgia) quanto nas operações de canteiro. A disparada dos preços do gás natural e da eletricidade na Europa em 2022, com efeitos até 2023, se transferiu quase integralmente para o custo final.
- Mão de obra. Vários países da UE convivem com escassez estrutural de trabalhadores qualificados em ofícios como carpintaria, alvenaria, eletricidade e instalações. Salários subiram acima da inflação em nichos específicos, e a rotatividade elevou custos de contratação e retenção.
- Regulação e sustentabilidade. Normas mais rigorosas de eficiência energética (isolamento térmico, envidraçamento, bombas de calor, painéis solares), acessibilidade e resiliência sísmica ou climática elevaram o padrão mínimo do que é construído. Melhor qualidade, custo maior.
A desaceleração observada em 2024 e 2025 reflete a normalização parcial dos preços de energia e de vários insumos, o fim dos gargalos logísticos e o efeito da política monetária apertada do Banco Central Europeu, que enfriou a demanda por novos empreendimentos e reduziu a pressão nos canteiros.
Impacto direto no mercado imobiliário europeu
A alta acumulada da construção alimenta três dinâmicas simultâneas do mercado europeu de habitação, todas relevantes para o comprador brasileiro:
- Encarecimento do imóvel novo. Novos empreendimentos precisam repor custos de construção mais altos, o que sustenta preços de lançamento em patamar elevado, mesmo quando a demanda esfria.
- Escassez de oferta. Custos maiores tornam menos projetos viáveis. Muitos incorporadores adiam lançamentos, reduzem número de unidades ou saem de mercados marginais, o que restringe a oferta futura e alimenta preços no mercado secundário.
- Diferença entre novo e usado. O spread entre preço do imóvel novo e do usado tende a se ampliar, especialmente em cidades com estoque antigo relevante. Isso cria oportunidades específicas em reabilitação e retrofit, sobretudo em Lisboa, Porto, Madri, Barcelona, Roma e Atenas.
Para quem acompanha o mercado português, o comportamento é consistente com os dados nacionais divulgados pelo INE de Portugal, que mostraram alta de 6,9%custo da construção nova habitacional em maio de 2026. No caso espanhol, o Instituto Nacional de Estadística (INE) publica indicadores complementares, e o preço médio da habitação segue em trajetória de alta, especialmente em áreas metropolitanas.
O que muda para brasileiros em processo de mudança
você planeja comprar imóvel em Portugal, Espanha, Itália, França ou qualquer outro país da UE, três recomendações concretas emergem do relatório do Eurostat:
- Priorizar imóveis prontos ou em fase final de obra. Reduz a exposição a novos reajustes de custo, comuns em empreendimentos com entrega distante. Contratos "chave na mão" com preço fixo e cláusulas claras de reajuste protegem o comprador em cenário de custos ainda voláteis.
- Considerar reabilitação com apoio jurídico e técnico especializado. Comprar imóvel antigo para reformar pode ser vantajoso do ponto de vista de aquisição, mas o orçamento da obra deve incluir margem generosa (20% a 30%) para imprevistos, dada a alta dos insumos. Em Portugal, a legislação sobre Áreas de Reabilitação Urbana (ARU) oferece incentivos fiscais que podem compensar parte do custo.
- Avaliar mercados secundários e cidades médias. Enquanto Lisboa, Porto, Madri e Barcelona concentram preços elevados, cidades como Coimbra, Braga, Setúbal, Valência, Zaragoza, Málaga e Alicante oferecem custos operacionais mais baixos, com qualidade de vida equivalente e acesso pleno à rede europeia.
Perspectiva 2026 e adiante
A desaceleração dos preços de construção para próximo de 1,3% em 2025 sugere que a fase mais aguda da inflação ficou para trás. Não significa reversão: as altas acumuladas não retrocedem, e o patamar elevado passa a ser referência. Três fatores podem alterar essa trajetória nos próximos anos:
- Investimento público em habitação. Vários governos europeus lançaram planos de aumento da oferta habitacional (Portugal com o Plano Mais Habitação, Espanha com programas regionais, França com metas de zero artificialização líquida). Se a demanda pública crescer sem ampliação da capacidade construtiva, os preços podem voltar a acelerar.
- Transição energética. A Diretiva Europeia de Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD) impõe padrões cada vez mais exigentes, com prazos de adaptação até 2033 e 2050. Isso pressiona custos de construção nova e, sobretudo, de reabilitação.
- Ciclo monetário. Uma eventual queda mais rápida das taxas do BCE aqueceria a demanda por novos empreendimentos e pressionaria custos de canteiro; um ciclo mais lento, o inverso.
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Fontes oficiais
Sobre a autora

Dra. Débora Friedrich Izquierdo
Advogada, Sócia-fundadora do Studio Cidadania
Inscrita na Ordem dos Advogados de Portugal e na OAB. Mais de 10 anos dedicados a processos de cidadania portuguesa, italiana e espanhola, com atuação direta em Lisboa e mais de 500 famílias representadas.
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